Desabafo de um portador de devaneio excessivo

 Estou agora no momento indo para a casa da minha namorada, no centro do Recife. E não poderia estar mais infeliz. Não por não amá-la - pelo contrário - mas pelo que tive hoje ao sair de casa. Sai de casa suado, triste e com raiva.

Primeiro, meu nome é João Victor, sou nascido em Recife, Pernambuco. Atualmente moro em Jaboatão dos Guararapes, periferia na zona sul da Região Metropolitana do Recife. Tenho 23 anos, e ainda moro com os pais - na verdade, com minha mãe para ser mais exato, e o marido dela. 

A primeira vez que conheci a palavra "Devaneio Excessivo" fora já adulto, talvez a um ou dois anos atrás; uma tradução de "Daydreaming Excessive", é uma condição psicológica asscociada a imaginação e o devaneio. O portador basicamente "sonha acordado"; ele cria cenários, personagens, situações, sensações e histórias e as interpreta, como um sonho. Talvez seja algo normal dessa forma, mas essa condição ocorre em uma duração e intensidade que passa a prejudicar a vida do portador. Geralmente, no meu caso, esses sonhos acordados ocorrem a partir de algum "gatilho". Esse gatilho pode ser uma música que gosto muito por exemplo, então quando começo a ouví-la, fico mais relaxado ou mais agitado, então começo a imaginar cenários a partir dela. Mas esse devaneio passa a se construir cada vez mais, como uma estrutura que a pessoa dificilmente consegue parar, pois a sensação é muito boa - como um sonho.

Tais situações ocorrem em mim desde que me entendo como gente; na minha infância, eu tinha uma imaginação bem fértil, embora não conseguisse verbalizar para os outros. Eu era (e ainda sou de certa forma) tímido e muito antissocial, apesar de gentil o suficiente para brincar com as outras crianças. Lembro que conseguia com apenas uma caneta imaginar uma espada e que a partir disso já imaginava um cenário para me mover (uma masmorra escura, uma montanha para escalar etc.), ou que gostava  de improvisar e montar coisas no meu quarto e me colocar como personagem de uma história.

A medida que fui ficando mais velho, e parando de "brincar", esses devaneios passaram a se materializar em situações. Era era um adolescente, então situações como namoro, responsabilidades, rolês etc., eram inacessíveis pra mim, antissocial e isolado da classe, então fantasiava situações como essa, que tinha uma vida sociavel, com realizações que não tinha (ser bom em esportes, ter uma namorada, ser inteligente na sala etc.) e ter bens materiais que nunca tive (computador, videogame, bicicleta). Então, meus devaneios eram sempre comigo se movendo aleatoriamente pelos espaços, as vezes murmurrando pra mim mesmo (tentativa de imitar vozes dos personagens das histórias) e ate pulando em situações extremas (alegria, raiva, realização).

Tal condição que eu tinha não amenizava em casa, pois também tinha pressão por conta da minha irmã do meio, uma menina talentosa, brilhante, inteligente, ponderada, carismática, com uma rede de amigas e amigos, estudante exemplar (conseguiu vaga no Colégio de Aplicação de Recife ainda no início do ensino fundamental II, na época em que era necessário um "vestibular" para entrar). Tinha uma grande inveja de quase todo mundo ao meu redor, afinal, não tinha nada: nunca fui inteligente, nunca tive amigos, nunca conquistei nada na escola a não ser brigas, falsos amigos, xingamentos, humilhações, decepções etc. Isso parece uma contradição certo? Apesar de quieto e antissocial, eu era muito temperamental, e assim eu tinha meus momentos de raiva e de violência; não que eu seja violento, ou tenha sido abusivo com alguém. Mas tinha muitos desentendimentos e brigas, principalmente quando eu era mais novo. Os garotos amavam me provocar, então - rapaz sensível, com péssima auto estima - partia para cima dos provocadores. Me arrependo de muita coisa que fiz no passado, movido por esses meus episódios de brigas. Me fez uma pessoa que tem medo de viver, de ter tudo anulado por conta da minha personalidade, de perder amigos, paixões por alguma coisa que eu disse (por mais normal e inofensiva que sejam).

Então, ao final dos meus estudos, meu ensino médio foi o pior possivel. Continuei isolado. Via os outros, a viverem suas vidas, sabiam da faculdade que iam, e até já sabiam como conseguir seus objetivos, enquanto eu parecia um intruso, um peso para todos ao meu redor. Então, a medida que chegava o ENEM não sabia como proceder, nem qual o curso. Não tinha um plano pro futuro. Até que, após um teste vocacional, me deparei com as ciências humanas, sobretudo história, filosofia e sociologia. Eram as matérias que mais gostava (junto com biologia). Então pensei em ser professor, me identificando com meus professores e o carísma e conhecimento de alguns deles. 

Fiz o ENEM, estudando em cursinho, em 2019. E consegui passar pelo ENEM de primeira, com 860 na redação. Isso me deixou surpreso, pois a nota mais alta na parte de humanas tinha sido "680". Fiquei muito bem preocupado, mas consegui passar pela segunda entrada e no cadastro de reserva na Universidade Federal de Pernambuco, no curso de história-licenciatura. Porém, veio a pandemia da Covid-19 e a universidade, assim como grande parte de todas as instituições, fecharam. E fiquei inquieto, sem nada pra fazer e me deixando cada dia mais triste. Então meus devaneios passaram a povoar minha vida cotidiana, em meu quarto.

Então chegamos a situação atual. As redes socias são um dos principais gatilhos para meus devaneios. No Instagram, isso geralmente ocorre quando vejo perfis de pessoas conhecidas, com suas conquistas, amores etc., um reel com uma música que eu gosto muito. Mas o Youtube é o principal gatilho, é onde estão as músicas que costuma ativar meus gatilhos, os vídeos que passo horas e horas vendo, e acabo me arrependendo, me sentindo inútil, triste e decepcionado com o fato de permanecer sempre voltando para o mesmo lugar.

Isso deixa minha vida muito difícil. Minhas roupas ficam suadas, fedorentas e imundas, acabam estragando em pouco tempo, o celular sujo, com cera de ouvido nas saídas do som, e os botões afundados. De ontem pra hoje, tive uma crise absurda de ansiedade. Passei o resto do dia fantasiando para tentar diminuir a ansiedade, e acabei perdendo uma aula importante para assistir, não consegui acabar um planejamento simples para meu TCC, ignorei minha namorada a noite toda (véspera de nosso aniversário de namoro) e acabei dormindo apenas as quatro da manhã.

Acordei hoje de nove da manhã, e fiquei gatilhado ainda até sair de casa para ir a casa de minha namorada. Detalhe que eu combinei de ir umas onze horas da manhã, para chegar antes do almoço, mas eu estava tão gatilhado que só sai de doze e meia da tarde. Sai de casa, sem o relógio, sem o cinto da calça e extremamente suado. E triste, afinal vejo minha vida sendo jogada fora, mas no fim, lembro que não tem nada a se jogar. Se eu morrer, ninguém vai sentir falta de um fracasso de ser humano como eu.


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